sábado, 19 de julho de 2008

Não tenho de ir para a "escola de pesos"...



Chegou-me aos ouvidos que a TZ e a MN estão preocupadas com a minha falta de músculo para esta profissão. Como sei que elas acompanham o blog, vou deixar aqui um breve esclarecimento.

Eu não ando a carregar carcaças nem bocados de carne. Não é necessária força física para este trabalho. O que é preciso é saber afiar facas para que depois ao cortar não ser preciso exercer muita força nos pulsos e braços. O trabalho consiste em observar, cortar e se for necessário, mandar bocados para o lixo. Os trabalhadores do matadouro é que são responsáveis pelos trabalhos pesados, enquanto os inspectores apenas têm a responsabilidade de cumprir os pontos básicos de inspecção. Para mim a espécie fisicamente mais exigente (mas mais simpática em termos de ambiente de trabalho) é a dos franguinhos, porque temos de estar na mesma posição em pé durante muito tempo. Nas vacas, por exemplo, a linha é mais lenta e os inspectores dividem-se por tarefas - um corta os linfonodos da cabeça, outro analisa as vísceras (fígado, rins, coração, pulmões) fazendo os cortes obrigatórios em busca de lesões (por exemplo, parasitas nojentos como a Fascíola Hepática), outro vê a parte de cima da carcaça (está num nível mais elevado para chegar lá) e finalmente outro vê a parte de baixo da carcaça. Claro que a organização dos matadouros varia, se forem só 2 vacas abatidas provavelmente 1 inspector basta para fazer isso tudo (demora é um bocadinho mais). É preciso ainda ver os dentes da vaca para conferir a idade com o passaporte. O maior problema para mim é a minha altura, posso ter maior dificuldade em chegar até meio da carcaça se tiver de cortar qualquer coisa suspeita. Nos frangos também pode ser um problema, porque não vejo muito bem a parte de cima deles quando passam na linha, tornando-se mais dificil detectar celulite (sim, os frangos têm celulite, não são só as frangas).

No meu ponto de vista, trabalhar com animais vivos é fisicamente muito mais exigente, porque em muitas situações temos de inventar força para os agarrar, especialmente se estiverem contrariados.

Um grande beijinho para as duas (quer dizer, as três...)!!!

sexta-feira, 18 de julho de 2008

Finish with Uttoexeter

Finalmente amanhã vou-me embora de Uttoexeter para mais uma semana de treino práctico, desta vez na zona de Manchester, essa bela localidade. As boas notícias é que não vou ficar sozinha, vou ficar em casa do KZ em Leeds. As más notícias é que vou estar um pouco longe dos matadouros (a uma hora), o que para quem começa de madrugada não vem nada a calhar.
Como correu em Uttoexeter? Bah... O melhor daqui foi o convívio com a lady do Bed and Breakfast. Ela já tem o novo cachorro, é da raça do que está na foto - Staffordshire Terrier (raça proibida em Portugal). Quando acordei e abri a porta do quarto o cachorro saltou-me logo para as pernas (a Inglaterra não é um bom país para quem não goste de cães, mesmo andando todos à trela). Para mim o mais estranho é terem 2 cães, entre os quais um cachorro, numa casa de alcatifa. Uma autêntica porcaria. Falando em contrário de porcaria, ontem aprendi a fazer Muffins de qualquer-coisa-berry aqui no BB, na reunião com umas excelentíssimas senhoras que não sabem como se diz espátula em inglês (eu por acaso também não sei). Foi muito engraçado, duas das senhoras já tinham estado em Portugal, e demos por nós a discutir a segurança alimentar do chumbo do vidrado dos utensílios antigos de cozinha portugueses (os novos com o símbolo do garfo e copo já são seguros), que uma delas tinha comprado na sua visita turística. Ainda ninguém puxou conversa para os McCann, thank God!
O pior de Uttoexeter foi o matadouro, não entendia nada do que diziam por causa do sotaque manhoso e as instalações eram verdadeiramente arcaicas, se fosse lá a ASAE fechava no momento. Mas para os ingleses o que interessa é a legislação da BSE (cumprida "para inglês ver", dando mais emprego e trabalho aos OV - Official Veterinary - e ainda bem). Tudo o resto, como a higiene básica e as instalações, desde que não tenha efeitos directos visíveis no consumidor... Mas se calhar é uma excepção, tenho de ver os outros sítios primeiro antes de emitir opiniões (será que nos outros locais também cospem para o chão e os Meat Inspectors não dizem nada?). Acho que estou a ser injusta com o matadouro de galinhas onde estive, que é muito limpinho. Outra coisa nojenta é o cheiro das carcaças dos porcos. Depois de me habituar ao cheiro dos porcos da MP em Portugal, ao ser sujeita a este novo cheiro ia caindo para o lado - porque os porcos aqui não são castrados (not looking forward to eat pork...).

quinta-feira, 17 de julho de 2008

Reunião de Tupperwares, lol!

Numa altura em que vários dos meus coleguinhas estão fartos do treino e querem-se ir embora, eu por cá continuo mais cansada do que contrariada. Vou tentando pensar noutras coisas sem ser o trabalho. Por exemplo, hoje vou ter o primeiro acontecimento social da semana, uma espécie de reunião de tupperwares (não é tupperwares mas é outra marca) aqui no Bed and Breakfast, com direito a chá e bolinhos. Isto com os ingleses é muito simples, basta começar a puxar pela conversa sobre o animal de estimação, arranjamos logo amizades (primeiro há que referir se está a chover ou não). Neste caso, a dona do Bed and Breakfast está muito entusiasmada porque passou a prova para poder ser dona de um cachorro abandonado da RSPCA. Para isso tiveram de fazer uma vistoria à casa para assegurar as condições. Daqui a um mês voltam cá para ver se o cachorro está a ser bem tratado. A quasi-dona também teve de levar o seu cão velhote (Whippet x Staffordshire Terrier) ao abrigo para ver se havia compatibilidade entre animais. O processo de adopção de animais tem imensas etapas. Nós em Portugal estamos a milhas disto, a verdade é que são muitos os animais que vão parar às associações de protecção animal pela segunda vez (como a APAFF).

terça-feira, 15 de julho de 2008

Dexter would have liked this slaughterhouse


Depois da companhia dos meus coleguinhas na “animada” terriola de Ruskington (perto de Lincoln), lá tive de rumar sozinha para a fase seguinte do treino como Meat Inspector. Neste momento sinto-me como o elefante que estava ao lado do London Eye – a caminhar com cuidado para não meter a “pata na poça” apesar de não estar a ver bem o chão. Este treino é muito cansativo. Estamos sempre a mudar de cidade (eu até tive sorte de não ter de ir até ao sul do Reino Unido) e afastamo-nos das únicas pessoas que conhecemos por todo o país. Somos mandados para o cu de judas para alojamentos pseudo-ranhosos (eu até tenho tido sorte) onde não podemos cozinhar. Resultado: apanha-se "parvovirose", pelas porcarias que somos obrigados a comer fora de casa. Uma coisa boa é que não estou em galinhas, estou num matadouro que faz vacas, porcos e ovelhas em Uttoxeter – Staffordshire. Outra coisa boa é que o BB é aceitável, tem TV cabo, dá para lavar roupa, preparam-me o pequeno almoço às 6 da manhã, é limpo e tem casa de banho com shower (e não com banheira). A dona é muito simpática e tem um cão cruzado de Staffordshire Terrier com Galgo Whippet (parece um fenómeno paranormal). De qualquer maneira, apesar de todas as contrariedades, não estou arrependida de ter vindo.

sábado, 12 de julho de 2008

Registo no RCVS




Ontem eu e o polaco fomos a Londres fazer o registo na RCVS. Deixámos o carro em Luton no parque mid term (toca a pagar 15 libras) e apanhámos um autocarro para a Victoria Station pago pela Eville and Jones. A viagem de autocarro foi de 1,5 horas, sendo que a minha pessoa ia ensalsichada ao lado de um grande polaco roncador. Finalmente em Londres tinhamos 20 minutos para o appointment com o RCVS, por isso "corremos" para a rua em questão. Quando chegámos ao quarteirão do RCVS havia um bloqueio policial sem término definido e sem autorização para nos dizerem o que se passava. Lá telefonei para a Eville and Jones que entrou em contacto com o RCVS para descobrir que era mais uma das muitas suspeitas de atentado terrorista que têm acontecido pela cidade. Havia alguns curiosos à volta do bloqueio, mas nada comparado com a curiosidade lusitana relativamente a estas coisas. Entre os curiosos estava um português todo contente a contar do caos que houve em Portugal na altura da greve dos camionistas, com alguns ingleses a ouvirem com cara de espanto. Passado um bocado lá abriram as ruas e pudemos cumprir a missão de passarmos a ser MRCVSs e a poder exercer no Reino Unido em pleno direito. Tivemos de declamar em voz alta um juramento parvo sobre bem estar animal e lealdade com o Royal College. Enfim, coisas à inglês. Ainda tivemos tempo para uma voltinha por Londres, antes de voltarmos para Lincolnshire numa viagem repleta de trânsito "pára-arranca" com chuvinha!

sexta-feira, 11 de julho de 2008

Tarte da Ervilheira


Estou muito contente que tenham deixado esta fatia de tarte para mim feita para a viagem à Lagoa da Ervilheira. Vai ser a primeira coisa que eu vou fazer quando chegar a Portugal - perguntar por ela!! E nada de desculpas que cheguei tarde de mais, isso não pega!

quarta-feira, 9 de julho de 2008

chickens are driving me crazy



Esta semana estou num matadouro de frangos perto de Lincoln, que vende para a KFC (entre outros). Nunca vi tanto frango na minha vida, já estou a vomitar moelas pelos olhos e já me estão a nascer penas no rabo. Mais uns tempos nisto e acho que começava a pôr ovos.


Só para dar uma ideia, tenho de inspeccionar 10500 frangos por hora. Claro que tenho intervalos e vou variando de pontos de inspecção (existem muitos "meat inspectors" neste matadouro), mas não posso fugir à estonteante velocidade de ter de inspeccionar 3 aves por segundo. No início é normal "andar às aranhas" mas depois o trabalho torna-se 100% mecanizado, transformando-nos num software que detecta ligeiras alterações de cor, consistência e padrão. Ainda por cima ficamos a cheirar a canja de galinha, eh eh eh!

domingo, 6 de julho de 2008

Comunicações



Ainda em Leeds, achei melhor arranjar maneira de ter as minhas vias de comunicação desentupidas. Nada melhor do que comprar tudo em Leeds antes de ir parar às terriolas no meio do nada. Eis as minhas aquisições da Carphone Warehouse:


- telemóvel TalkMobile para poder telefonar para a rede fixa em Portugal por 4p/minuto, sem carregamentos obrigatórios (o telemóvel custou 10 libras e depois foi só comprar um cartão de mais 10 libras);


- mobile broadband da rede Three, em que o aparelhómetro custou 50 libras e cada carregamento mensal de 1Gb fica por 10 libras. Não tem contrato, ou seja, sou eu que escolho os meses que quero ter net. Tal como em Portugal, a maioria destas coisas tem contrato e obrigatoriedade de conta bancária nacional, coisa que ainda não tenho (tirando quem tenha um amigo brasileiro que possa comprar um Kanguru por nós, dos pré-pagos...)

near Lincoln


Na 6ª feira deram-nos o plano para o estágio e fiquei a saber por onde vou parar nas próximas semanas. Para já começo por Lincoln, num matadouro de aves (franguinho do bom). Entre cada sítio de estágio nunca vou ter de conduzir mais do que 2 horas, o que até nem é mau comparando com as alternativas (outros coleguinhas tiveram de andar umas boas 6 horas). Pelos vistos a empresa tem muita dificuldade em arranjar locais para estagiar, parece que ninguém gosta muito das pessoas com este papel (somos os maus da fita).
Estou alojada numa espécie de turimo rural, com quarto com casa de banho. É perto do matadouro e tem máquina de lavar a roupa (à borla). Tenho uma janela que dá para um jardim cheio de coelhos (mais ao fundo há cavalos). A dona disto tem ainda uns tantos cães, um deles é um Border Collie (daqueles que a Tata gosta e que no livro dos animais lá de Cantanhede era estranhamente descrito como potencialmente agressivo). É muito simpática – vai-nos preparar umas sandochas para levarmos para o trabaho!

O Breakfast Menu é composto pelo seguinte:
- Bacon, eggs, tomato, Lincolnshire sausage, mushrooms and black pudding. Temos ainda como complemento (energético) smoked haddock and smoked salmon. Nham nham!!!

Telemóvel da empresa

Os tipos da EV não são muito espertos, podiam formatar os telemóveis antes da entrega à nova pessoa. O meu telemóvel tem uma mensagem escrita que é assim:

“No me hables mas d esta puta empresa que me pongo d mala hostia. Ya tengo insomnio, es que me caliento que me dan ganas d darle fuego a la oficina d leeds.”

Parece-me que alguém está chateado. Se calhar devia telefonar a perguntar exactamente o que se passou, já que é de borla...